Conta-se que a velhinha, Dona Amada, nem ligava pra essas coisas de festa. Queria mais era ficar sossegada, sem tumulto. Tumulto era coisa pra juventude, não pra uma velha beirando o centenário.
O caso é que toda gente queria fazer festa pra comemorar os anos de Dona Amada, que era criatura indulgente, sempre fora. Resolveu dar o consentimento, contanto que a deixassem em paz. Detestava burburinho, detestava “dona Amada não nos quer em seus anos”. Apenas esperaria, quando estivesse tudo ajeitado que a avisassem. Abominava ter de se envolver. Que preparassem a coisa toda, quando chegasse a hora ela assoprava as benditas das velinhas e logo mais ia dormir. Alegava cansaço, às vezes dor de cabeça, mas não sempre pra que não inventassem de chamar médico. Dona Amada também não gostava de médico. Não gostava de ser apalpada nem de responder perguntas.
Sendo assim, que se virassem na tal festa.
Marcaram para sábado, logo depois do almoço. O horário agradou Dona Amada, que sabia que assim todos viriam cheios do almoço e não tardariam a ir embora. Nem sossego uma velha pode ter nesse fim de vida, reclamava ela no pensamento. Um abuso!
Passou o meio dia que ela começou a esperar. Uma da tarde e começaram a chegar as gentes para a festa. Filho, filha, nora, genro, neto, neta e até quem ela não conhecia. Decerto gente esfomeada e sem nada pra fazer. Dona Amada deixou que arrumassem a mesa, uma fileira de tábuas pregadas uma à outra, na varanda. Que a chamasse, ora bolas.
“Venha cá, Dona Amada, que o bolo já, já estará servido” disseram. Obrigação social, isso é que é. A solução é ir logo e deixar que acabe cedo.
“Não foi esse o bolo que mandei fazer” ouviu a filha dizer ao irmão, assim que chegou à varanda. Os convidados olhavam a cena com preocupação, outros com tédio. Dona Amada mantinha a serenidade, impassível. Pelo visto não acaba assim tão logo, pensou. Continuou esperando. “Foi esse que me deram” respondeu o filho para a irmã, que não demorou a descrever as infinitas diferenças entre o bolo que comprou e o bolo que entregaram. “Uma droga que é esse!” dizia ela agora, brandindo uma faca (!).
É só um bolo, tentou dizer Dona Amada. Crianças abestalhadas, dá pra comer esse também! Continuavam discutindo.
Dona Amada pensou ter visto alguém bocejando. Quem é que podia julgar, não é mesmo?
Alguém perguntou que horas eram. Alguém disse que eram quase duas e meia. Mas que coisa curiosa isso de o tempo passar tão rápido.
E mais essa dor de cabeça que lhe dava agora. E o calor, que coisa bem estranha. Uma barbaridade como essas coisas mexem com a gente. Odiava médicos, odiava dor de cabeça, mas essa doía mesmo. Doía que era o diabo! Quem foi que desligou a luz? Como ficou escuro... mas essa não era a varanda? Havia sol, deveras estava tudo escuro. Será que ia chover? Dona Amada gostava era de chuva! Disso ela gostava.
“Mamãe, vamos ter que ficar com esse bolo mesmo! Dá pra ser?”
Dona Amada não respondeu, que diferença fazia? Agora já era tarde, havia esperado demais.
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